27 de jul de 2017

na primeira semana enche de elogios
em um mês já fala que ama
dá presente, chama de dona

Quando percebe que ganhou a fêmea
se faz de desentendido
manda aqueles argumentos plagiados e falidos
dá uma de macho desconstruído

Disfarça como estímulo
a diminuição da minha estima
dizendo que tá sobrando nas minhas bordas,
chamando pra exercício na orla
convencendo que é pra aumentar minha beleza
só porque sou diferente da sua última francesa
adora dizer que cozinha o tempero da Bahia
mas não importa em que casa,
só eu que faço a comida
Pior, além de tudo é palmiteiro
grita que luta contra o racismo que sofre
mas não pega mulher preta.
Me critica porque eu tomo meus goró
quando tu mesmo só trabalha
com a cara enfiada na carreira de pó
Longe de mim fazer apologia
à criminalização das drogas
mas se tu fosse vendido em pack
seria mais nocivo que uma tonelada de crack

Posa de galã
que não demonstra afeto na rua porque é tímido
mas vive propondo menage
adoraria me ver chupando buceta
afinal, você que é o descolado
eu é que sou a careta

Tu acha mesmo que a pica paga
o que falta além dela?
Tá pensando que seu rebolado e aquela chupada
compensam o falso intelecto
e o raciocínio dissimulado?
Acredita mesmo que a gente cai de boca
no prato da sua masculinidade
depois de tantos anos sovados
na injustiça e desigualdade?
que a gente atura sua mentira
confundindo amor livre
com submissão sob medida?

De careta a gente não tem nada
Tamo cada vez mais engajadas
Fica esperto que sua hora chega
e quando chegar, não chora
vai se informar um pouquinho
pede desculpa, sai de fininho
que a mulherada tá chegando de sola,
coturno, salto alto, bico fino,
não interessa. A movimentação tá feita
Ou tu muda de postura
ou vai ser posto da porta pra fora.

Carola Bitencourt
26/07/2017

17 de jul de 2017

Da antiga mesa só sobrou o retrato de Greta e Audrey. O tampo foi tomado por tarjas, cartelas metálicas, líquidos temperados e tabelas de horário.
Das noite ao sereno sobraram apenas as fotos, a saudade das vistas não registradas e o silêncio no ouvido, mais sentido após tanto burburinho.
As unhas cresceram na falta da necessidade de poda, depois de tanto tempo sem bater os dedos nos quadrados plásticos mal ordenados.
Daquela feroz alimentação afoita e falha, nada. Agora ficou somente o cozido lento, sem unguento, e por enquanto obrigatório no ponteiro das horas certas.
Na cama não cabe mais ansiedade, saiu o último vício escorrido no enxágue da roupa suja. Pretende-se não enlamear novamente a alva calma.
A contagem planejada do ano, ano novo e novena até pós carnaval foram suspensas. Pairam sobre o deleite de outro sol, à frente ou atrás das nuvens, presente cobrando plácido a postura ereta.
De tantos desfechos possíveis hoje me satisfaço com o fim das linhas de uma página escrita contando com a próxima, só amanhã.

Carola Bitencourt
15/07/2017

11 de abr de 2017

Fico vendo suas costas
editando curta distância
antes mesmo de estar posta
na ilha ao lado da cama
atenta a essa historia
quase haikai de tão recente
quase saio em transe
quando transo seu poema
ponho-me em teste
atestando teimosia
tentando treinar em trote
novo tema, arritmia

minha mania de rimar
expressa bem esse momento
obrigação de escrever,
mesmo que só pra passar os minutos
meu íntimo quer registrar
indagar porquê de tu
agora que tudo me vem
tão leve como quem se contenta

Carola Bitencourt
12/04/2017


7 de mar de 2017

Aquela

era sua poesia

falar

enquanto fudia



Aquarela
jazida
ia devagar
agarrava a cama vazia
Ouvia os gastos
sarava o vago vácuo
curava as teses toscas
outras horas
satisfazia
as vidas e vindas

Carola Bitencourt
07/03/2017

7 de fev de 2017

Passar pelas ruas do Rio, no começo de Fevereiro, nesse pedaço ermo de fronteira entre bairro parque praia, escuro varrido de folha seca amendoeira, espécies... repleto de vazio insegurança ar de verão com uns gatos pingados a esmo, uns cachorros pintados magros... Nem parece que daqui uns dias tá tudo coberto de gente. Um tapete de pele colorida com pó, cerveja, suor deslisante e gritos decorados na embriaguez, aqueles nacos de refrão destilados gelados com calor a vapor. Pouco  se acredita ver tanta sorte de povo alegre ou as torturadas almas serelepes se pegando sem considerar amanhã durante a noite ou transcorrendo sem dormir horas inteiras sedentas pela próxima batucada batida a próxima corrida ou a mesma sangria desatada pelos blocos de metal gigantes circulando no asfalto quente, aliviado por sombras escassas disputadas a bunda, cotovelo, sorriso maroto e piscadelas de gentileza. Quem diz que se inunda de som rasgado de palheta voz nylon baqueta qualquer objeto atrito barulhento que se encontre a frente ou à mão acompanhando sem compasso ou com o que tão na hora bradando? A confusão distinta por metros de distância entre um monte caminhando e outro dispersando entre encontros frustrados e novas amizades espontâneas, a náusea faminta por massa ferro hidratação ou refrescância. Nem parece que é bonito, gostoso, ou dá saudade, mas é, é, e dá.
Passando por essas ruas a esses minutos de agora nem parece, Má aparece nos dias certos pra ver se tu não se solta e volta todo ano, passa?

Carola Bitencourt
06/02/2017

30 de jan de 2017

Já sei o filme pra próxima sessão
em francês com legenda português,
já que o espanhol deve ser congelado
Já pensei 4 vezes em te mandar
mensagens fofas, perguntas curiosas e à merda
rasgar seu contato virtual
vigiar minha vontade de ver seus vícios
criar umas barreiras mais habituais
que aquelas que te dei pé-pé pra pular pra dentro
de mim, de mis sueños, de mis cosas bellas
proibir de verdade sua mania de chamar reina
por permissão sem originalidade
desertar sua estadia nas ilusões que ascendo

Já pensei 10 vezes em escrever essa poesia
sabendo que nunca te vas a leerla
lejos de nosotros como me hay dijo
sin que pudriera escucharlo
Já sei a película da próxima sessão…

vos no te vas a saber

Carola Bitencourt
30/01/2017

24 de jan de 2017

vídeo com preta ganhando na cara dura: realista! eu já vi
gente que faz feitura fatídica à vista e sem CGI: também,
quase tortura pra quem não consegue: "é ruim"
um pouco de tapa na cara como mal
parece que tem mordaça...
Carece entender o ferrolho da bola de ferro
parece com paz-macera de quem tinge a voz com berro
erro de quem se diz dono,
ferro de quem se faz trono
o game fica pra trás quando se lê historia
quem não esquenta a barriga no fogão
não se refresca na pia
piegas o ser que acha que pode sair no pio
crente que jaz o assento de falo
na placenta que cria

Quando seremos igualitários?
Quê passa na fronteira do lado
que aqui se espia?
todo esse notar temerário acaba sentando na mesma pik@
pouca
que agora oca ecoa transita e se esvai sombra fraca
retarda
quer segurar
mas não cala
nem calça, quem dirá calcanhar sangrado
quem quiser que tente
vai ser outra pedra
sem guardar semente!

Carola Bitencourt
25/01/2017