29 de nov de 2012

não chove.
prendo alguma gota de dor que de mim não cai
nem todos os dias são sãos
e eu dalilei minha força rota
num haicai alexandrino
como se tal existisse
dominei meu grito justo
torcendo a ponta interna do umbigo
tudo pra ser mais amena
pra tornar mais serena uma noite seca
aqui dentro é doce
a aceitação do fracasso
em agradar um cego
que não apalpa o próprio carma
tenho ciúme das companhias impunes de consciência coletiva
ou a falta dela lhes dá diferente ponto de vista
o foco na luz objetiva
a foto do pus nessa ogiva programada
que a gente teima em dar o nome de relacionamento
o monte de baboseiras ditas
somos babalorixás em transe
cobrando 20 reais
numa esquina suja
e ainda mais limpa
que o amor ímpar que a gente se jura.
não venha me acalantar
hoje é tempo de choro
não penso em calar o vento
que me sacode a acordes
de guitarra distorcida
esse tempo passa
e pretendo aproveitá-lo o quanto possível
pra não deixar nenhuma gota presa
dessa chuva liberada na pálpebra.

Carola Bitencourt
29/11/2012

25 de nov de 2012

Rabiscar
rebuscar a forma
biscatear um jeito
de avassalar a norma
avançar a borda:
o calcanhar do feito.

Carola Bitencourt
18/04/2006
Se as primeiras impressões são as que ficam,
esqueça aquela em que o nervosismo
fincou em mim a fala bruta.
Se houver ainda algum resquício
de vontade recíproca
lembre-se das gargalhadas de antes
inversas diante da fome
em que açoitamos minutos
como meros coadjuvantes
Esqueça essa minha tensão
com os pratos requintados,
que pra mim, nada mais são,
que doces deleites não comumente visitados
Lembre-se daquela saudável conversa
banhada a goles de olhos inebriados
e um bocado de vozes roucas
no pé do ouvido embriagado
Guarde a audácia pouca e interessante
da liberdade aberta em te encontrar na quinta
entregue o abraço frouxo
à força sísmica entalhada nas falhas do laço
entre o seu braço e o meu pescoço
me receba com mais que um pequeno sorriso
mas um grande brilho refletido na íris
ao me entortar prazerosamente o dorso
Se existe ainda alguma chance de deixar
o cícero não ser trilha de terror
mande a marisa fazer o curso do contador
e eu farei o gelo derreter com suor.

Carola Bitencourt
25/11/2012

18 de nov de 2012


to naquela hora em que a gente tira a bateria do telefone,
ou se asfixia no dia seguinte.
naquele momento em que a altivez da razão já deixou de lado a voz tonante alta,
e faz agora um backing vocal da emocional sinceridade,
daquelas que exasperam a fixação em reter o âmago,
e desembocar o líquido excessivo.
nessa vontade astuta de trazer o desejado
sem contar som cantado ou veste visível.
são essas vezes que mudam a vida,
ou te atropelam a caminhada feita
nessas é que se repensa a carapuça,
ou se pinta o rosto de colorido.
Agora é quando decido que tipo de pele me cobre
se aquela em que sinto frio,
ou se a outra em que meu sangue é sorte..
Sem medo de errar a medida
prefiro meu edredom de soft.
E boa noite.
Que o sol amanhã me acorde.

Carola Bitencourt
18/11/2012

12 de nov de 2012

Vejo gente que se preocupa com as cartas de natal que as crianças intoxicadas de falta de afeto e fartura deixam nos correios aos montes, como bancos de neve de um papai noel fantástico.
Além da incoerência de colocar um velhinho branco, barbudo, barrigudo, que veste roupas de frio num calor de 40°, como representante de uma esperança obsoleta de que um objeto numa data específica pode trazer algum alento aos famintos de carinho, ainda me pergunto se ninguém percebe a inconsistência de colocar nessa atitude (comprar presente de caridade) sua prova de amor ao próximo.
Certamente, há de haver um susto quando me digo indignada com essa falsa sensação de saciedade a que se dá o prazer o ajudante do natal dos pobres.
Além de contribuir pra maior fonte de desigualdade social do mundo (o capitalismo), ainda há a ideia de que ao entregar o comprado, o resultado será um belo sorriso, e um rostinho mais feliz pra esses desprovidos: por algumas horas, ou até que o brinquedo se quebre.
Meu rostinho fica bem sisudo.
Percebo o quanto estamos engodados nessa trama fatal do espírito natalino, do ato filantropo, da ajuda superficial, em prol de um minuto de alegria.
Que tal, se ao invés de ler cartas anonimas, nos déssemos ao trabalho de ler numa escola, ou num centro comunitário, ou na casa da mãe joana com dez filhos, a importância de votar, pensar e usar camisinha? Tenho certeza que no natal que vem, não viriam pedir a superficialidade de um pedaço de plástico...



É muita coisa pra fazer,
pra ler,
pra organizar,
pra beber,
pra ouvir,
pra curtir,
assistir,
gargalhar.
é tanto não sei dizer,
tanta cara pálida peluda,
tanta razão homeopática,
tanta balela pesada nesse mar de baleias sorumbáticas
que a gente fica assim
nesse marasmo de mim, você, eu, aquele, quem, quando, quanto, por que tanto?
parece que a gente merece a mercê que exerce,
e deixa de ver a voz do vulto da consciência,
que já tá tão invisível quanto o indivíduo dividido.
quantas horas olhando o espelho refletido com o eixo do outro
quanto exu exuberante querendo ser estrela cadente
um moinho de cento e cinquenta tons de transparência.
e basta um sorriso diferente
pra se criar uma enchente de crença no deserto da esperança...

Carola Bitencourt
12/11/12