18 de mai de 2010

A gente acha que pode se livrar de algumas ideias. Se convence disso e segue dando passos. Se esquece delas, e faz de conta que não se lembra.
O desejo é um bicho cupim, não carpinteiro. O carpinteiro constrói coisas, o cupim se alimenta delas. O desejo se alimenta das ideias. Come-as como mendigo seco em banquete gratuito de comida refinada. Come por fome e não por apreciação.
Se na segunda a vontade é não ter TV e se aconchegar a fogueira interna pra fugir do frio, na sexta a vontade é se jogar na fogueira, fugir do interno e abrir o mundo subterrâneo.
Há quem diga: Maravilha!, é isso o melhor de ser humano, pensante, "escolhedor".
Pra mim, só tenho bichos cupins. Mudar de ideia é mais uma maneira de desperdiçar todo o esforço derramado em prol do objetivo que um desejo, já retrogrado, me ofereceu.
Felicidade é mais um nome/lugar como Atlântida, UnderLand, Triângulo das Bermudas. Utopia de quem se encharcou nas gotas de Lucy in the Sky with Diamonds, e achou que nadava por lá por dois segundos.
Querer é o que aprendemos primeiro. Nascemos querendo. Leite, sono, abraço, calor, TV LCD, Jacuzzi, Camarão VG, Show da Madonna, primeira classe, bons sonhos, um amor inesquecível recíproco, comida de vó pela vida toda, saltar de paraquedas, reconhecimento profissional, casa no campo, na praia, em Ibiza e um AP em NY...
A gente nasce, cresce, fica rico (ou morre depressivo) e depois morre feliz. (Hã?)Pra que isso tudo????
Não vou virar hippie, já tentei na adolescencia e não deu certo. Quando percebi que não tinha restaurante japones no Sana, o desespero foi do mesmo tamanho e proporção que o prazer de comer um salmão cru, bem fatiado, e sem que eu tivesse gastado mais que a energia de levantar o braço e chamar o garçon. Não consigo virar hippie, mas tenho inveja daqueles que são e ainda conseguem ser limpinhos. Preocupar-se somente em alimentar-se bem, ter filhos, e viver basicamente de amor (a música, a arte, ou a qualquer coisa que nós, meros capitalistas, conseguimos consumir) seria realmente um feito e tanto. Afinal, no fim da redundância, SER HUMANO é grupal. Quem vive sozinho está em outra classificação animal, não serve nem pra ser cupim.

4 de mai de 2010

Não sei como julgar verso
Não sei conjugar verbo
por isso mesmo berro
diante da gramática sintética
da
linguagem sem fonética
da
métrica estética
pregada sob percevejo de ferro
no meu quadro de cortiça

sou omissa com a ética
voto branco da bulímica
nem um pouco policial

Peco pela correção política
(politicamente incorreta)

Certa mira dislexica
que se atem a ira.
suficientemente preguiçosa
pregando sulfúrico
pingo cristalizado
sentimentalista

Página branca e caneta
sem web, mais gazeta
sem etiqueta, nem tag
nem Meg, nem spotlesseira

Odeio a vida iníqua de algumas letras
e choro pela morte das palavras obsoletas.

Rimo, remo, remember-ei!

Acento circunflexo
no trema depois do hífen de

...........^
NÃO-SEÏ

Carola Bitencourt
03/05/10